domingo, 24 de maio de 2015

Entre as mulheres, as negras.

Entre as mulheres, as negras.

Rita Mendonça[1]

Mulheres lindas e de presença forte na Conferência Nacional da Mulher Advogada, realizada nos dias 21 e 22 deste mês.

De todas as idades, origens, classe sociais, estado civil, convicções filosóficas, políticas e religiosas.  De todos os gostos, estilos e aptidões.  Enfim, mulheres.  E ponto final.

Encontro de meninas, independente da idade, é sempre uma alegria e troca de experiências em todas as dimensões de nossa vida.  As conversas e trocas não se limitaram aos temas jurídicos. Percebi e aprendi novos cortes de cabelo, combinações de roupas e acessórios, perfumes, maquiagens. Uma maravilha!

Algo que senti nesses dois dias foi o fato de que embora as 'não brancas' fossem a maioria, nenhuma, além de mim, usavam o cabelo que Deus (qualquer Deus) lhe deu.  

Eu mesma não o assumia integralmente, até poucos anos atrás. Embora gostasse dos “cachuchos”, vivia querendo domá-los na forma e posição que eu considerava “correta”.

Hoje a minha cabeleira tem vida própria e faz o que quer.  Ao contrário do que eu imaginei e temia, estou é mais feliz e segura.

Não vou dizer que é fácil. Embora esteja super bem resolvida, de quando em vez ainda me sinto um estranho no ninho por causa das madeixas, já que o padrão, pelo menos quando estamos em ambiente formais e solenes, é alisá-las.

Essa ausência de cabeleiras crespas no evento, só reforça e confirma o que estudamos nas academias: entre as mulheres, as negras ainda estão em um patamar inferior. Ou seja, dentro da luta de gênero, a mulher que não é branca ainda tem que travar, entre as mulheres, suas lutas de raça.

Não são comentários diretos; não são críticas. São olhares... um tipo de racismo que o Brasil vive e sequer se dá conta, já que é velado.

Quando há fala, é assim: "que lindo, o seu cabelo!", mas numa postura corporal que diz "bonito para você, pois não sou negra e nem serve para mim".

Muitas são vítimas da armadilha capilar - como eu - e nem perceberam que fazendo certos tratamentos em salão de beleza que se diziam amaciadores de cachos ou redutores de volume estariam descaracterizando sua fibra capilar de tal forma que só cortando completamente a parte exposta ao produto poderiam ter seus cachos de volta.  E aí, no desespero de acordar com o cabelo horrível, migramos para a chapinha e a escova definitiva. 

Na nossa negação de raça somos praticamente todos um pouco vítimas.

A descolonização, por exemplo, em mim, foi tão avassaladora, que por não ter passado fome e por ter branqueado como resultado das migrações pós-abolição da escravatura, não me sentia negra até bem pouco tempo.  Só “morena”, o que na nossa cabeça já nos coloca num patamar mais vantajoso.  Principalmente se a gente alisar o cabelo.

As pessoas que o fazem, necessariamente não são más. Muitas não se dão conta de que foram educadas para achar o que é diferente como feio e errado. Muitas sequer se dão conta que se sentem mal com a presença do diferente julgando com instrumentos e referências que não são suas e nem de suas vivências, mas que lhe foram impostas goela abaixo, desde tenra idade, quando nos era negada, por exemplo, a bonequinha de cor escura e cabelinhos crespos, considerada feia.

O problema começa, de fato, quando a gente se dá conta do racismo que existe em nós e ainda assim não quer se abrir para conversar e refletir sobre a discriminação.  Ou quando começamos a acusar e apontar o dedo em riste como se fôssemos imune à cometer atos de discriminação.

“Atire e primeira pedra!”. Se formos justos e coerentes, não atiraremos nenhuma.

Criar situações de diálogos inclusivos, e expor, sem medo, as nossas situações de ausência de empatia e alteridade, são o grande remédio que cura a maioria quase absoluta de nós.

Como me disse uma amiga, companheira de jornada de inclusão, Marta Gil[2], ao observar minha foto na conferência, "você saiu do armário", capilarmente falando.  E isso vem me fazendo bem e ando até mais sorridente nas fotos.

Tenho certeza que terei o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Alagoas e de Fernanda Marinella[3] que por diversas vezes já demonstrou interesse e disponibilidade para abordar recortes e temas transversais perante à OAB, dentro das questões de gênero, como é o caso da mulher negra, lésbica, com deficiência, indígena, cigana, idosa, jovem no primeiro emprego, egressa do sistema prisional e quilombola.

Enfim, mulher é gente, e todas as dimensões humanas precisam ser tocadas pelas suas especificidades.

Nessa luta já conto com a força e credibilidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), por meio de Jorgete Lemos[4] e da ABRH/AL, na pessoa de Danielle Maciel[5], que me acolheu como Diretora Jurídica e de Diversidade na Seccional Alagoas, e vem me apoiando nas iniciativas em que questiono as diferenças sociais com as quais lidamos tão mal em nosso cotidiano.

Para nós, mulheres não brancas, "força na peruca", e vamos à luta, que ficar reclamando, de longe, sem mergulhar no problema, com respeito e postura amorosa para as limitações do outro - claro - não ajuda a resolvê-lo; só reforça o estigma.




[1] Advogada, pesquisadora e consultora em Direitos Humanos, Acessibilidade e Inclusão Social.  Diretora de Diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Alagoas (ABRH/AL). Secretária de Estado Adjunta da Mulher e dos Direitos Humanos em Alagoas.  Secretária Geral da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Alagoas (OAB/AL).  Especialista em Educação em Direitos Humanos e Cidadania (Ufal), Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça (UnB), e Participação Democrática, República e Movimentos Sociais (UFMG).
[2] Socióloga e Consultora em Inclusão, fundadora do Instituto Amankay de Estudos e Pesquisas.
[3] Conselheira Federal da OAB e Presidente da Comissão Especial da Mulher Advogada.
[4] Assistente Social e Consultora Organizacional, Diretora de Diversidade na ABRH Nacional.
[5] Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Alagoas (ABRH/AL).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

"Percebam que a alma não tem cor"

Há duas semanas do dia 13 de maio, o Dia da Abolição da Escravatura em nosso país, convido-os para uma imersão em alguns conceitos e reflexões que nos ajudem a caminhar em direção da superação de qualquer traço de preconceito de raça que ainda que sem perceber estejamos reforçando nas oportunidades de trabalho.

Clique aqui para ler na íntegra o meu mais recente artigo "Percebam que a alma não tem cor".


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

É só um minutinho! (Sobre as vagas de estacionamento reservadas para as pessoas com deficiência)

É só um minutinho!
(Sobre as vagas de estacionamento reservadas às pessoas com deficiência)


Rita Mendonça*


As ruas do centro da cidade de São Miguel dos Campos/AL amanheceram neste dia 3 de dezembro, Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, com uma novidade um tanto quanto inusitada: as vagas mais concorridas para estacionar em frente às lojas do comércio local estavam ocupadas por cadeiras de rodas onde se lia em um cartaz “Volto já”.

Trata-se da Campanha de sensibilização para o respeito às vagas de estacionamento para as pessoas com deficiência, organizada pela Associação de Deficientes Físicos de São Miguel dos Campos (Adefismic).  Infelizmente, é comum que não se respeite essas vagas privativas. 

O presidente da Adefismic, o arquiteto especializado em acessibilidade Maurício Faustino, cadeirante, disse que a intervenção foi idealizada a partir de experiências semelhantes realizadas em outras cidades brasileiras, no eixo sul-sudeste do país.  “Independente da região os nossos problemas com barreiras à acessibilidade são praticamente os mesmos: calçadas desniveladas, rampas íngremes fora da angulação, calçamento irregular e vagas preferenciais ocupadas por quem não tem deficiência.  Por isso resolvemos reproduzir em São Miguel uma experiência de sensibilização que vem dando resultado em outros municípios”.

As reações foram as mais diversas possíveis.  As justificativas e desculpas também foram muitas.  A mais comum delas: “é só um instantinho”, “volto em um minuto”, “é rapidinho”. 

E nesse mesmo sentido foi a intervenção dos associados da Adefismic.  As cadeiras de rodas ocuparam espaços destinados aos veículos e diziam nos cartazes “volto já”.

“Nosso objetivo é que as pessoas que não tem dificuldades de locomoção sintam o que é ter desrespeitada uma garantia que é nossa – nós pessoas com deficiência – e que foi uma conquista decorrente de anos de luta por reconhecimento de nossa cidadania.  Desejamos que a partir de tomadas de consciência como essa as pessoas mudem o seu comportamento com relação ao respeito de espaços que são reservados para nós.  Não por privilégio, mas pelo reconhecimento das dificuldades que enfrentamos diariamente para ir e vir com autonomia e segurança”, diz Ednaldo Vitor, associado da Adefismic, vereador da cidade e também cadeirante.

A deputada federal Rosinha da Adefal, cadeirante, que lidera as discussões no Congresso Nacional quando o assunto é acessibilidade e inclusão, lembra que “quem não tem mobilidade reduzida não tem noção da importância desses espaços reservados.  Na maioria das vezes a cidade, com sua falta de planeamento e acessibilidade, é o principal obstáculo que nos mantém longe das escolas, do mercado de trabalho, dos espaços de lazer, esporte e cultura.  Assim como qualquer outra pessoa queremos exercer a nossa cidadania e conviver socialmente.  A vaga de estacionamento reservada, próxima ao local de nosso destino e com espaço para o giro da cadeira nos dá essa autonomia com segurança, o que é essencial.” 

Rosinha é relatora de projeto de lei que estabelece que o Código Nacional de Trânsito considere pena gravíssima estacionar em vagas reservadas para pessoas com deficiência, conferindo o teto da pontuação na CNH e também os níveis mais altos de multa para os infratores (PL 3800/2012). 

Lamentavelmente, assim como para o uso obrigatório do cinto de segurança, o estabelecimento de penalidades, principalmente o risco do pagamento de multa, parece o processo de conscientização e acelera a absorção da regra pela sociedade.  Antes essa estratégia não fosse necessária.

O comerciante local Marcelo Ferraz, embora tivesse com todos os espaços de estacionamento em frente à sua loja ocupados por cadeiras de rodas, se solidarizou ao movimento, reconhecendo as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência, muitas delas que poderiam ser evitadas por simples conscientização e respeito às leis por parte da sociedade como um todo.  “Tem gente que se excede, ocupando vagas reservadas e estacionando em frente às poucas rampas que dão acesso às calçadas, o que impede a circulação de quem tem dificuldades, principalmente quem usa cadeira de rodas”, diz Ferraz.

Mas houve quem se irritasse com a intervenção, se saindo com o chavão “pago meus impostos, não tenho deficiência e não tenho nada a ver com isso”.

Quem pensa assim se engana. Num mundo cada vez mais invadido pela violência social, pelos acidentes de trânsito e pelas doenças, não é o fato de ter nascido sem deficiência que nos garante chegar ao fim da vida sem ser acometido por qualquer uma delas.

E mesmo que não se adquira uma deficiência na trajetória de nossa vida, se tivermos a sorte e a felicidade de envelhecermos teremos nossa mobilidade reduzida e fatalmente precisaremos dos mesmos recursos de acessibilidade e inclusão que hoje são tão preciosos para as pessoas com deficiência.

Cuidemos do nosso futuro, então.

*é advogada, pesquisadora e consultora em direitos humanos, inclusão social e acessibilidade.
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